TÚNEL DO TEMPO - JÚLIO SANTANA: O BRASILEIRO QUE MATOU 492 PESSOAS E ESCAPOU DA POLÍCIA

Mais conhecido como Julião, o assassino de aluguel foi responsável pela morte de inúmeros guerrilheiros durante a ditadura militar

VICTÓRIA GEARINI


Júlio Santana foi um assassino de aluguel brasileiro que matou cerca de 500 pessoas, entre elas a guerrilheira e militante do Partido Comunista do Brasil, Maria Lúcia Petit, e o sindicalista goiano, Nativo da Natividade, durante a ditadura militar no Brasil. Estima-se que, entre suas vítimas, estejam também civis, como crianças e mulheres. No entanto, Júlio Santana conseguiu sair impune de seus crimes.

Relançada em 2018, pela Editora Planeta, a obra O Nome da Mor­te — A História Real de Júlio Santana, O Homem que Já Ma­tou 492 Pessoas, do jornalista renomado Klester Cavalcanti, explora o lado oculto do homem que assassinou a sangue frio inúmeras pessoas. Durante sete anos, o repórter coletou informações que pudessem esclarecer a mente de Júlio Santana, mais conhecido como Julião.

Por meio de entrevistas inéditas com o pistoleiro, Klester Cavalcanti foi capaz de construir uma narrativa esclarecedora do homem responsável por tantas mortes. Hoje, com mais de 60 anos, Julião fala abertamente como orquestrou suas mortes e afirma, ainda, que começou a matar aos 17 anos.


Guerrilheira Maria Lúcia Petit e o sindicalista Nativo da Natividade, vítimas de Júlio Santana / Crédito: Creative Commons

Julião afirma que aprendeu a matar profissionalmente com o seu tio, Cícero, que também lhe ensinou a rezar após as execuções. Sempre que o pistoleiro era contratado, ele anotava em um caderno o nome da vítima e do mandante, além de especificar o valor pago e onde efetuou o crime. Ao todo, o assassino catalogou a execução de 487 pessoas.

Além de mortes, Julião participou, ainda, de sequestros, entre eles de José Genoino, durante a Guerrilha do Araguaia, em 1972. No entanto, o pistoleiro declarou que não aceitava fazer o serviço fiado e se recusava a matar sua vítimas enquanto elas dormiam. Além disso, diz ter sido contra a morte de mulheres gestantes.

Por meio de uma ligação feita à polícia federal, Klester Cavalcanti constatou que Julião foi preso somente uma vez. Segundo o jornalista, o assassino foi solto após sua mulher subornar um delegado, lhe oferecendo o veículo que Julião utilizava durante seus crimes. Hoje em dia, impune, o senhor com pouco mais de 60 anos se encontra aposentado, após contribuir para a Previdência.

Prefeito encomendou morte de sindicalista

No dia 23 de outubro de 1985, Nativo da Natividade de Oliveira, presidente do Sindicato Rural de Carmo do Rio Verde, em Goiás, era assassinado com quatro tiros à queima-roupa pelo pistoleiro Júlio Santana, na entrada do sindicato. Nativo foi um trabalhador rural que investiu em formar a consciência política dos trabalhadores da região. A viúva de Nativo denuncia que ele havia sido executado devido à sua militância no PT e na Central Única dos Trabalhadores (CUT).

O assassinato fora encomendado pelo então prefeito da cidade, Roberto Pascoal Liégio, com o apoio do presidente do Sindicato Rural (patronal), Geraldo dos Reis de Oliveira, integrante da União Democrática Ruralista (UDR), e do fazendeiro Genésio Pereira. Com a anulação do primeiro julgamento, o crime prescreveria e nenhum deles foi condenado.


Ator Marcos Pigossi interpretando Júlio Santana, em O Nome da Mor­te (2018) / Crédito: Divulgação

A obra de Klester Cavalcanti foi adaptada para outros países e, em 2007, foi contemplada com o Prêmio Jabuti — a maior premiação de Literatura. Devido ao sucesso, em 2018, a obra foi relançada e ganhou uma versão para os cinemas, onde o ator Marcos Pigossi interpreta o personagem principal.

Onde a vida não tem valor

Retrato da impunidade, história real de pistoleiro é relançada após sucesso fora do Brasil e de adaptação para o cinema

Fernando Lavieri / Isto É

Parceira da impunidade, a cultura da pistolagem assombra o Brasil há tempos. A crença de que matar é fácil e de que o crime compensa produziram no País assassinos como Júlio Santana, o Julião, matador profissional desde os 17 anos. Ele entrou no ofício levado pelo tio, Cícero, que também lhe ensinou a rezar dez “Ave-marias” e vinte “Pai-nossos” depois de cada execução. Foram nada menos que 492 pessoas assassinadas, das quais Julião catalogou 487: ele marcou cada uma em sua macabra “caderneta da morte”. Ali anotava o nome do mandante e da vítima, o valor pago e onde efetuou o “serviço”. Só não matou gestante e outros pistoleiros. Não aceitava “fiado” e nem tirava a vida de quem estivesse dormindo. A história de Júlio Santana e de seus crimes foi detalhada pelo jornalista Klester Cavalcanti no livro-reportagem “O nome da morte”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. A obra será relançada pela editora Planeta na terça-feira 14 após ter sido publicada em 13 países e render um longa-metragem. O filme homônimo, dirigido por Henrique Goldman, estreou no início de agosto e segue em cartaz nos cinemas. A trama revela um homem de duas faces: o assassino implacável que sabia ser carinhoso com a esposa e filhos, de fala mansa e pausada, bem-humorado e dono de uma fé inabalável. Mostra também uma triste realidade brasileira, na qual a vida não tem nenhum valor. Ou melhor, tem: vale uma ninharia.

Aposentado

Julião fez fama em Porto Franco, cidade à beira do Rio Tocantins, no Estado do Maranhão. Foi lá que Cavalcanti obteve o telefone do pistoleiro junto a um policial federal. “É muito comum os fazendeiros contratarem pistoleiro por aqui”, disse o agente ao repórter. É espantoso que Julião só tenha sido preso uma vez – mais ainda que tenha sido solto depois de sua mulher subornar o delegado com a motocicleta que ele usava para cometer os crimes. Ele até contribuía para a Previdência e hoje vive de sua aposentadoria.

Além de matar, Julião participou da captura de José Genoino, em 1972, durante a Guerrilha do Araguaia. Reza a lenda que foi Julião quem acertou um disparo no braço do guerrilheiro que se embrenhara na selva. “Júlio fez de sua profissão um trabalho comum. O pistoleiro é muito diferente de um serial killer,” diz Cavalcanti. No Brasil, essa profissão se perpetua em assassinatos encomendados como o da vereadora Marielle Franco, cujos autores permanecem impunes.


“Júlio Santana fez de sua profissão um trabalho comum. O pistoleiro é muito diferente de um serial killer” Klester Cavalcanti, autor de “O nome da morte” (Crédito:Divulgação)

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6 Comentários

  1. So no Brasil um animal destes fica solto e ainda recebe do INSS

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    1. Verdade, aqui quem manda é os bandidos, lei cega, da nojo; eu queria que tivesse prisão perpétua sem direito à condicional, pra ver se essa safadeza não acabava!

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    2. Vi o filme e tmb li o livro e acabei de ler com um sentimento de revolta pela falta de justiça. Muito triste

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  2. Lamentável saber que nosso país tenha acontecido tantas pessoas mortas é os assassinos permanecerá na impunidade.

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  3. Lamentável, saber que em nosso país tiveram tantas pessoas mortas covardemente, é os assassinos permaneceram impunes.

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  4. Incompetente jenuino ainda anda por aí

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