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O Padre-Vaqueiro: O difícil encontro com Miguel Lopes


Foto Ilutrativa
Fonte: Internet

Dia 18 de julho de 1974, produzi um texto de cinco laudas para o Diário de Pernambuco, relatando o encontro que eu tive com o vaqueiro Miguel Lopes, depois de uma longa viagem empreendida nos municípios mais visitados pelo acusado da morte de Raimundo Jacó. 

A matéria que tinha como procedência o município de Sítio dos Moreiras, parecia mais um relatório, com a seguinte abertura: Após 24 de hora de trabalho nas caatigas, vilas e fazendas dos municípios de Ouricuri, Parnamirim, Serrita e Granito, consegui atingir a minha meta – a entrevista desejada por toda a imprensa, com a figura de Miguel Lopes, tido como assassino do seu colega Raimundo Jacó, fato ocorrido no Sítio Lajes em 8 de julho de 1954. 

Meu encontro com Miguel Lopes pode ter acontecido por mera coincidência ou por um grave descuido dele, que ali (em Sítio dos Moreiras) teria que passar por necessidade da sua ocupação na caminhada diária entre Granito e Crato (CE) levando e trazendo gado. Só que, na semana em que acontece a Missa do Vaqueiro, causou admiração às pessoas que estavam presentes. 

Exatamente às 13h e 30 minutos, Miguel Lopes desceu da burra carda-pedrês debaixo de uma algaroba e procurou tomar um cafezinho na casa de número 116 da Rua Coronel Romão Sampaio, o modesto Hotel São Francisco, onde eu já me encontrava há mais de uma hora, tempo de sobra para fazer um lanche e bater um papo com Miguel Arruda, proprietário da acolhedora casa.

Conversamos bastante sobre Raimundo Jacó, a Missa do Vaqueiro e Miguel Lopes – que depois tomei conhecimento que era seu parente em terceiro grau. O jovem Francisco Bezerra, presente no recinto, se interessou muito pela conversa e depois informou que Miguel Lopes era seu tio. Eu estava mesmo na casa de parentes bem próximos de Miguel Lopes, sendo bem tratados por todos. 

Com seus 72 anos de idade, aquele homem franzino e de pequena estatura chegou de mansinho , “desapiou” da burra, cumprimentou os presentes com o tradicional “bom dia”, retificando para boa tarde, sentando-se em seguida em um banco. 

Cruzou-se as pernas, retirou o chapéu de couro que cobria os cabelos louro-grisalhos e, com a intimidade que o parentesco lhe permitia, perguntou se o café já estava no fogo. Perguntado de onde vinha, respondeu que estava indo deixar umas reses no Crato.

Àquela altura eu já estava ciente que a entrevista com ele seria quase impossível, pois pelas informações que obtive, Miguel Lopes não gostava de falar sobre o episódio que o atormentava há muitos anos. O fato é que ele saía do sério e até ficava enraivecido, partisse de quem partisse a iniciativa de falar sobre o caso mais comentado desde a criação da Missa do Vaqueiro. 

Pelo menos umas cinco pessoas estavam na sala, todas conversando sobre as coisas mais variadas (eu havia pedido a todos que ajudassem para o ambiente ficar movimentado, para a tão esperada figura não desconfiar do visitante desconhecido, no caso, eu), mas Miguel Lopes não tirava os olhos da rua, enquanto notava que eu estava com uma máquina fotográfica, tanto que perguntou quem era aquele “ilustre” que estava visitando a cidade.

Colocando café na mesa, eu observei que ele havia posto farinha na xícara em vez de açúcar. Eu lhe perguntei se gostava pouco de açúcar e ele respondeu que preferia uma quantidade pequena para “sentir o gosto do café”. Perguntei-lhe também há quanto tempo exercia a profissão de vaqueiro e ele respondeu que foi “desde o tempo que pode montar em um cavalo e isso fazia mais de 50 anos”.

A propósito, procurei esticar a conversa para criar uma certa intimidade com ele. Indaguei como estava a saúde do gado durante a frieza que fazia no Sertão e ele prontamente respondeu que os animais da região não sentiam muito como o gado que chegava de fora. Miguel Lopes tomou mais de uma xícara de café, acendeu o cigarro de palha e passou a conversar com um amigo - um papo reservado – que durou um tempão, até que Francisco Bezerra pediu que o tio o acompanhasse até o curral onde estava uma rês que ele queria que fosse levada até o Crato. Nesse instante, Francisco também aproveitou para fazer uma simulação: reuniu todo mundo e pediu ao tio para se juntar ao grupo para tirar uma foto.

Desconfiado, Miguel Lopes, que não tirava as vistas de mim, se recusou de ponto, argumentando que não ia tirar o retrato porque estava “desajeitado” apresentando a desculpa de que outro dia voltaria “direitinho” para atender ao amigo, no caso o fotógrafo. E sem que ninguém esperasse, ele partiu para a rua sem se despedir de nenhum dos presentes, montou na burra e saiu galopando. Com uma palavra Francisco analisou o gesto: “ele bateu em arribada”. 

Pegamos um jipe e já na saída da cidade localizamos Miguel Lopes, que estava chegando ao curral. Resolvi parar de incomodá-lo, pois fui informado que ele não desgrudara de uma postola 7.656. A única coisa que consegui foi uma foto tirada de longe, na qual Miguel Lopes aparecia de costa, mas com o rosto virada para a câmera. Saiu no Diário de Pernambuco e foi o único documento fotográfico desse episódio que já deu tanto o que falar desde que a Missa do Vaqueiro foi criada.


Fragmentos do Livro: João Câncio – A Saga do Padre-vaqueiro. 
De Machado Freire


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